Água em avicultura - gestão e cuidados

A gestão da água faz a diferença no desempenho das aves

A água é indispensável para os processos fisiológicos das aves, incluindo a digestão, absorção de nutrientes, regulação da temperatura corporal e eliminação de resíduos metabólicos. Qualquer alteração na disponibilidade ou qualidade da água repercute-se rapidamente no consumo alimentar, no crescimento, na eficiência produtiva e na suscetibilidade às doenças.

A gestão da água deve, por isso, integrar não apenas a garantia do fornecimento contínuo, mas também a monitorização da sua qualidade e do funcionamento do sistema de distribuição. Estes fatores assumem particular importância em períodos de stress térmico, nos quais o consumo hídrico aumenta significativamente.

1. Monitorização de consumo e acesso à água

O acompanhamento diário do consumo de água e da relação água/ração representa uma ferramenta simples e eficaz para avaliar o estado do lote. Em condições de termoneutralidade, o consumo de água ronda 1.8 a 2 vezes o consumo de ração, subindo com a temperatura ambiente e com a idade das aves. O que importa não é o valor absoluto de um dia, mas o desvio face ao padrão esperado.

  • Registar diariamente o consumo de água.
  • Monitorizar o rácio água/ração.
  • Interpretar o sentido das alterações/desvios:
    • Problemas no abastecimento;
    • Má qualidade da água;
    • Falhas ambientais - stress térmico;
    • Início de doença.

O acesso adequado à água depende igualmente da correta regulação das linhas de abeberamento, pelo que se deve garantir:

  • Ajustar altura das linhas ao crescimento das aves;
  • Regular corretamente o caudal dos nipples.

Além de estar disponível, a água deve chegar à ave fresca e renovada. Dessa forma, deverá ser garantido:

  • Temperatura ideal da água: 18–21 ºC - Água morna reduz o consumo e, acima disso, favorece a proliferação bacteriana e a formação de biofilme.
  • Realizar flushing quando necessário - renovar a água estagnada e baixar a temperatura, sobretudo em stress térmico, em períodos de baixo consumo e após a administração de medicamentos ou vacinas.

O cumprimento das boas práticas acima enumeradas poderá assim evitar:

  • Consumos insuficientes;
  • Derrames;
  • Camas húmidas.

2. Biofilmes - perigo escondido:

O que são?
Algumas estirpes de bactérias têm capacidade de produção de biofilmes, sendo uma estrutura organizada, no interior das tubagens, na qual as diversas bactérias podem coabitar e multiplicar-se.  Este biofilme funciona como uma camada de proteção das bactérias, contra desinfetantes e qualquer outra agressão.  Estas estruturas são um risco para a avicultura, por:

  • Provocar entupimentos;
  • Reduzir o caudal de fornecimento de água nos bebedouros;
  • Proteger bactérias nocivas para as aves (Escherichia coli, Pseudomonas spp., Enterococcus spp, Salmonella…);
  • Diminuir a eficácia do cloro e de outros desinfetantes;
  • Reduzir a eficácia de vacinas e medicamentos administrados pela água.

Como identificar a presença de biofilme:

  • Pela presença de conteúdo de aspecto viscoso ou escorregadio no interior das tubagens e/ou bebedouros;
  • Presença de depósitos de tom acastanhado, avermelhados ou negros;
  • Valores não conformes nas análises microbiológicas realizadas.

Fatores predisponentes e medidas preventivas/corretivas:

Os pavilhões são locais inerentemente contaminados por microrganismos, pelo que a formação destes biofilmes acaba por ser inevitável, no entanto existem fatores responsáveis pelo seu aumento indesejável:

  • Água estagnada e com temperaturas elevadas (20-35ºC) ambientes expectáveis nos primeiros dias de vida de um bando de aves;
  • Presença de matéria orgânica:
  • Águas ricas em ferro, manganês ou cálcio;
  • Administração frequente de vitaminas, eletrólitos, etc.

Como prevenir biofilmes? 

1- Durante o ciclo produtivo: cloração da água

A cloração representa um dos métodos mais utilizados para garantir a qualidade microbiológica da água de bebida. O parâmetro mais importante é o cloro residual livre, correspondente à fração de cloro ainda disponível para exercer ação desinfetante após reagir com a matéria orgânica presente na água.

 

Valores recomendados

  • Cloro residual livre: 1–3 ppm
  • pH: 6,0–7,0

2- Durante Higienização dos pavilhões:

O Peróxido de hidrogénio estabilizado (H₂O₂) é um dos compostos mais utilizados na avicultura para a remoção e prevenção de biofilmes nas linhas de água. A sua ação baseia-se na libertação de oxigénio reativo, que oxida a matriz do biofilme e destrói os microrganismos protegidos no seu interior. 

Recomendações de utilização

  • Aplicar preferencialmente entre lotes no período de lavagem.
  • Respeitar a concentração e o tempo de contacto recomendados pelo fabricante.
  • Após o tratamento, enxaguar as linhas para garantir a remoção de todas as porções de biofilme;
  • Confirmar que não permanecem resíduos antes da entrada de um novo lote de aves.

PONTOS A RETER:

  • A água é o primeiro nutriente: alterações na sua quantidade ou qualidade refletem-se de imediato no consumo, no crescimento e na saúde do lote;
  • Monitorizar consumo e parâmetros da água ajuda na prevenção e permite detectar problemas precocemente;
  • Prevenir biofilmes melhora a biossegurança;
  • A gestão correta da cloração assegura uma água microbiologicamente segura;
  • Água de qualidade = aves mais saudáveis e melhor produtividade.

Autores: Dr. José Barbosa e Dr. Bruno Abreu

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